Tenda_ Ante.: - Aponte a ponte -

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

- Aponte a ponte -


1º Dia - Querido companheiro de cela, estamos presos nesse mundo desigual ao céu.
Mas um dia tudo vai mudar...
O Céu é mais limpo que aqui, mais perto do Sol.
O Sol é mais lindo que aqui, mais perto do Céu.
Querido companheiro, ouvi dizer hoje que vão nos mudar de cela...
2 ª Dia - Estou te falando disto só agora em carta, porque eu decidi contar a você os fatos mais delicados após me afastarem de ti.
Vou para um lugar um pouco mais confuso, e você ficará ainda aí, mas viverá como
se estivesse em outra cela nova, pois não estarei mais contigo.
Companheiro, hoje aqui de longe estou já há dois dias a caminho da minha nova cela, e me deixaram aqui esperando chegar o trem pra me levar para lá.
Fiquei sabendo que não poderia te ver antes de ir-me.
Porém deixaram-me um pedaço de pão e um pouco de vinho, disseram que era suficiente para eu sobreviver.
Graças ao bom homem que me deixou aqui, o pão estava embrulhado a um guardanapo, e eu achei um pedaço de carvão e estou agora te escrevendo esta carta.
Se você está lendo esta carta, quer dizer que estamos realmente presos, pois pedi ao dono da cela para entregar a você.
Se ele te entregou, estamos realmente ainda presos.
Mas não fique triste querido companheiro.
Não estou lhe mandando esta carta somente para te mostrar a dura realidade.
Pois sei que você compreende, e sempre compreendeu em todas as nossas conversas, quando nós falávamos que uma das coisas boas que a vida trás é a dura realidade.
Não te preocupes, e nem tenhas medo.
Como a gente sempre soube, que daqui a gente só sai morto, lhe escrevo com amor no coração, e um grande aperto no peito por ter de ficar um pouco distante de ti.
Mas esteja consciente querido, como sempre a gente esteve..
3º Dia – Estou no trem querido, já faz dois dias que estamos viajando.
Vou te contar sobre algo que aconteceu comigo aqui.
Em um dia de consciência minha aqui em minha espera viajando.
Em meu aguardo, em uma das celas do trem, encontrei talvez por coincidência alguém que me fez aceitar esta vida aqui.
Vi de relance que á duas celas da minha, levavam também uma linda menina de olhos verdes.
Encantei-me com ela, mas ainda não tive o prazer de conhecer-la.
Amanha acho que iremos ficar mais uns dias em terra firme, pois chove muito agora, e teremos de adiar a viajem.

4º Dia - Hoje quando fui pedir ao chefe mais um pão e vinho, reconheci a garota que estava na beira da lagoa tocando violão.
Achei linda a suavidade de sua voz, e os leves toques ao dedilhar as cordas.
Quando me aproximei, ela me falou de coisas que nunca havia imaginado e acho que estou realmente encantado por ela, algo parecido com aquelas histórias dos livros, quando uma sereia encanta o marinheiro.
Amanhã vamos nos ver novamente.
Ela marcou comigo às 9 horas de novembro pro doce gosto da aurora lá fora no gramado perto do rio pouco adiante da lagoa.
Ela falou que a gente não podia ficar mais na lagoa, porque os peixes estavam se sentindo incomodados com os berros do chefe, quando ela cantava um pouco alto demais.
E o chefe gritava ao longe - os peixes precisam do silêncio de vez em quando!
Ela não gostou da idéia de mudar de lugar, mas falei pra ela que tudo está mudando nesse mundo, e ensinei pra ela tudo o que aprendi nas nossas conversas, e até aquelas coisas que eu e você aprendemos aquele dia ao olhar a correnteza do rio.
Ela ficou encantada e me disse nunca haver parado pra pensar daquela forma.
E começou a cantar novamente, mas parou quando percebeu que havia alguns peixes no rio a rondar nossos pés na água.
Nessa hora foi que eu a beijei, foi incrível, pois a ultima visão que tive dela antes de fechar meus olhos e beijar-la foi um sorriso lindo que você não faz idéia.
Mas era real, e me deleite em sua boca, como se estive em um paraíso.
Porém logo após um beijo de 5 minutos mais ou menos, ela olhou para o rio der repente, e falou que começou a sentir que o rio ao molhar os seus pés estava a levar os medos que ela carregava consigo.
E ela começou a temer como seria a vida dali pra frente sem os medos que a deixavam consciente do seu próprio mundo pessoal.
Nessa hora caro amigo, comecei a chorar também, acreditas?
Porque foi a mesma sensação que tive quando a vi pela primeira vez.
Porque junto com ela no mesmo momento senti que realmente eu também havia perdido algo. E quem estava levando de mim, não era o rio, mas ela que havia levado de mim a minha tristeza que me fazia achar respostas quando as procurava no fundo da alma.
Abraçamos-nos, e dormimos.
5º dia.
Hoje quando acordei notei que estava numa cela diferente.
E minha amada estava em sua cela, a terceira além de mim.
Não conversei mais com ela.
O trem chegou hoje companheiro, as 12h00min, e partimos as 13h00min.
Estamos quase chegando.
O maquinista do trem falou para o terceiro prisioneiro que está com nós que faltam 6 kilometros.
Este por sua vez me falou também, que a outra prisioneira, no caso a minha encantada sereia, irá até no destino final.
Acho que vou conversar com ela novamente quando chegar lá.
Aqui no trem estamos sendo levado em três celas, um em cada uma.
Amanha acho que vou conversar com o outro viajante novamente, talvez ele me diga algo sobre o novo lugar.
E quando chegarmos à nova cela, no destino final, vou tentar conversar com minha amada novamente.
Sei que ela irá me culpar por ter conversado com ela e o chefe ter colocado ela pra ir embora pra outra cela também.
Aliás, fiquei sabendo pelo outro prisioneiro viajante, que o destino dela não era o mesmo que o nosso.
Que ela era pra ficar na cela onde havia o rio, e que o chefe havia colocado ela para ir ao mesmo destino que o nosso, porque nós havíamos dormido na beira da correnteza abraçados.
Mas vou dizer a ela amigo, vou dizer, não tenhas duvida.
Vou dizer a ela que perdi minha tristeza filosófica, e ela perdeu os medos que a davam segurança pra lutar.
E que agora estamos os dois em um mesmo trem, e muito, muito perto.
Acredito que ela irá entender quando notar que eu poderei ser seu medo, enquanto ela poderá ser minha tristeza.
Mas que ao mesmo tempo nesta troca, poderíamos ser nós dois, somente alegria.
6º Dia – Chegamos ao nosso destino companheiro.
É um lugar interessante, logo conto mais de como é aqui.
Sobre minha amada, você não vai acreditar, mas acordei hoje dormindo ao seu lado.
Não sei como!
E pude conversar muito bem com ela, e sentir seu corpo muito perto de mim.
Quando falei tudo o que pensava, ela chorou percebendo o lado bom da tristeza, e chorei também ao perceber que estava enfrentando meu medo de viver um amor.
Quando percebi estava abraçado e ela, a beijar seu corpo.
E quando acordei vi que haviam mudado nós dois para uma cela sem paredes.
Fiquei chateado com o chefe, pois como ele pode mudar a gente de lugar assim, de uma hora para outra acordar diferente em outro lugar.
Hoje de manha fui conversar com o chefe, e Ele perguntou pra mim se eu havia percebido que toda vez que ele vinha me trazer pão e vinho, ele nunca abrira porta alguma.
Respondi que nunca havia notado!
E ele me clareou a imaginação da realidade ao me dizer que nunca houve portas, porque nunca houve parede.
Tudo sempre esteve aberto.
E o que estava fechando-me em paredes eram meus medos e minhas tristezas.
Fiquei muito assustado quando descobri isto.
Mas conversei hoje com minha amada, e decidimos testar essa nova descoberta.
Usamos nossos medos e nossas tristezas, e começamos a fazer uma casa circular só para nós dois em frente ao mar.
Com paredes novas criadas por nós.
Conseguimos facilmente meu caro, ela é linda.
O Chefe aprovou, disse que a gente merecia.
E que quando quiséssemos sair pra sentir a brisa, era só abrir a porta.
Descobri que sou capaz de criar paredes companheiro, da pra acreditar?
Nunca fiz nenhum curso, é como se eu já soubesse!
7º Dia - Enfim querido, me despeço por um tempo destas cartas, pois preciso de umas tuas também, estou curioso pra saber como estás, e vou aproveitar um pouco minha nova casa com minha amada.
Mas antes de finalizar, com tudo isso quero te dizer.
Vou sentir saudade de nossa cela.
Porém vou pedir uma coisa pra você, foi você quem fez a nossa cela? Porque eu não me lembro de ter feito quando morava ai com você.
Gostaria de receber um retorno seu me dizendo quem foi que construiu estas paredes onde talvez você ainda esteja.
E se estiver ainda, e lendo esta carta, gostaria que você levasse em consideração este meu último pedido.
Não vamos mais chamar nossa casa de cela, se ela tiver uma porta. Nunca te esqueça de olhar se você passou por uma porta, ou se o chefe te traz pão e vinho abrindo portas ou não.
Presta atenção nisso pra mim e me responde quando retornar esta carta?
Preciso muito saber se ai onde eu estava antes é mesmo diferente daqui.
Acho que vou conhecer logo um cara chamado Deus.
Dizem que ele é pai do chefe, e que foi ele quem pediu pro chefe separar a gente.
Talvez seja.
Mas vamos deixar os dias passarem. Acho que tudo tem seu tempo.
Talvez a gente se encontre logo pra você conhecer minha amada.
Até lá vamos manter nosso trato de adorar sempre aquele pedaço de papel que pegava fogo e não virava cinzas quando a gente tinha pensamentos de energia que brilhava.
Hoje, consegui fazer o mesmo eu e minha amada, ao ver o horizonte com ela.
A propósito, comecei a escrever esta carta pra você logo após ver o horizonte com ela.
E ainda estou aqui sentado, ela já entrou pra dentro de casa.
Só vou selar a carta, e logo um passarinho vem buscar ela pra te levar.
Aah estava esquecendo-me desta também,..
Descobri que os pássaros fazem o mesmo trabalho do chefe.
E que tem uns bem engraçados que tem gente que usa, e chama aqui de passarinho verde.
Se ele chegar ai logo, é sinal que esse passarinho verde também é rápido na entrega.
Diga a ele quando chegar com a carta, que agradeço por sua rapidez em te enviar este meu recado.
Que vou sempre usar ele da melhor maneira possível.
Se o chefe deixar é claro.
Grande abraço companheiro de cela.
Até a próxima.
Estimo muita saúde a você.
E não se esqueça de ver se as paredes são reais sim?
Grande Abraço.


Ismael Alves Do Amaral.
Xaxim – SC

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